quarta-feira, março 21, 2007

enjoy the silence




    Após ler aquelas linhas Sofia soltou um grito mudo, não queria acreditar no que tinha lido. Não conseguia reprimir as lágrimas, e deciciu soltá-las como se fossem cavalos bravos a galopar pelos campos. Chorou por dentro e por fora, chorou o que tinha direito a chorar. Às mulheres é permitidoo chorar. Chorar de tristeza, chorar de alegria, chorar por tudo e por nada e Sofia reservou-se a esse direito adquirido à nascença, tal como a "carga" que transportou durante anos, que pensava te-la deixado "nos perdidos e não achados".
    Sofia sabia que a estrada da vida era feita de bons e maus caminhos, com tuneis intermináveis onde não se vislumbra logo a luz ao seu fundo, outros mais pequenos, pequeninos até fáceis de passar, de encruzilhadas, com curvas, com rectas, com abismos, com planícies como bermas, enfim, tudo dependia do caminho escolhido para seguir.
    Sofia também tinha feito essas escolhas, umas vezes optou pelo caminho certo, outras pelo pior caminho, mas era após a viagem por estes que Sofia aprendia. Quando era pequenina, eram os seus pais que lhe indicavam o caminho a seguir, sempre um caminho bom, sem sobressaltos e fácil de transpor. Não deixava de ser bom ter estas indicações, mas depois chegou a vez de ser ela a decidir o rumo a tomar, e aí Sofia apercebeu-se que não havia manuais nem certezas. A escolha dependia do seu feeling, e Sofia quando decidia por qual estrada ia seguir levava uma certeza consigo, fosse bom ou mau era aquele que ela queria seguir...
    Sofia ainda se lembrava bem do dia em que teve que optar pelos dois caminhos que se abriam à sua frente. Um era certo e seguro...seguríssimo, mas a opção por esse fazia com que Sofia carregasse para o resto da sua vida aquela maldita "carga" que tanto lhe pesava e que ela não queria carregar mais.
    O outro era uma incerteza.
    Tanto podia ser um caminho lindo e onde ela podia descarragar a "carga", como podia ser que acrescentasse mais peso à referida "carga", peso esse a mais, que numca mais se poderia ver livre dele. Mas Sofia não hesitou.
    Não entrou nele com o pé direito, entrou logo com os dois, como era característico em Sofia (em tudo o que fazia, fazia-o por inteiro, a todos a quem se dava, dava-se por inteiro. Sofia era assim) e logo cedo descobriu que aquele era o caminho certo. Nele conseguiu quem a ajudasse a ver-se livre da "carga" e quando tal aconteceu Sofia parecia uma criança. Olhava para o Mundo com a inocência e espanto de uma criança quando vê pela primeira vez o Pai Natal. Sofia não cabia em si de contentamento, ria e chorava de alegria, olhava para tudo e todos duma forma como numca dantes tinha olhado. Até o sol era diferente, brilhava mais. E o azul do céu era mais azul.... e, e.... e não parava de soltar gritinhos de espanto e ohs e ahs, acompanhados de "que liiinndo". Sofia lembrava-se bem desses momentos. Um dos melhores momentos da sua vida, agora emsombrada por aquela "carta".
    Remetente desconhecido, assinado pela Vida.
    Cara Sofia
    É com pesar que te escrevo, mas é chegada a altura de te confrontar com esta dura realidade. Em tempos deixaste a tua "carga" a meio caminho naquela repartição dos "perdidos e não achados". Pensaste, e pensávamos todos, que era definitivo e que tudo o que lá ficava não mais era encontrado. Infelizmente, e por motivos de remodelação os arquivos com mais de 10 anos estão a ser devolvidos aos seus legítimos donos. E tu és um deles.
    Acredita que não me é fácil escrever direito por estas linhas tortas (parece que há aí quem o faça, não sei te dizer pois nunca o conheci). Mas serve esta minha missiva para te aconselhar a daqui para a frente tomares as devidas precauções, e dares-te a Ti como te dás aos outros (coisa que nunca fazes e tu bem sabes ao que me refiro) porque, embora ainda não seja uma realidade próxima, a tua "carga" vai voltar às tuas mãos. Esta decisão da nova "Administração" ainda não é definitiva, mas tudo aponta para isso.
    Pois é Sofia, nada é fácil em mim, eu sei. Mas é por eu não ser fácil que dou força às pessoas para continuarem a trilhar os meus caminhos.
    Dos 100%, sabes que 80% são-te desfavoráveis. Mas eu também sei que tu vais agarrar nesses 20% como se de 200% se tratassem, e vais aproveitá-los até à exaustão. Também sabes que ainda tens tempo pela tua frente, para aproveitares a ver-me com esse olhos. Aproveita bem esse tempo Sofia.
    Com ternura
    Vida

    As lágrimas continuavam a correr pela cara de Sofia.
    Sofia estava despojada de certezas. Apenas uma....
    A de que provavelmente acabaria a sua vida da mesma forma como a tinha começado.

Numa época em que dar as mãos já não é suficiente...unamos os pés